Opinião

O fantástico mundo da simplicidade automóvel

Com a tecnologia a invadir os automóveis modernos e perante a ditadura dos chips, lembramo-nos de quando tudo era mais simples
Ford Fiesta (1990)
Ford Fiesta (1990)
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Lembro-me perfeitamente do meu primeiro carro e de todas as peripécias que vivi com ele. Era um Ford Fiesta com matrícula de 1990, que fez jus à ideia de que não há amor como o primeiro e que me deixou excelentes recordações. Tinha um motor fraquinho – um “mil e cem” de 50 cv – e era muito espartano a nível de interiores.

Os vidros eram manuais e de digital não teria nada, com exceção, talvez, do relógio. Até o rádio era ainda de cassetes, com uma parte do painel frontal destacável, para afastar os “amigos do alheio”. O que na altura já era uma inovação, comparativamente aos rádios que se extraiam totalmente e que se tinham de transportar debaixo do braço ou esconder sob o banco. Agora que penso nisso, parece-me tudo pré-histórico. A verdade é que passaram “apenas” 25 anos e qualquer automóvel que saia de uma fábrica hoje é radicalmente diferente daquele Fiesta.

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Hoje os automóveis estão carregados de tecnologia e de equipamento digital. Para tudo é necessário um chip, como aqueles que encontramos em computadores, smartphones, ou em consolas de jogos. E não apenas os veículos elétricos ou híbridos. Os chips, ou semicondutores como também são designados, pelo facto de serem fabricados com estes materiais, são o que permite funcionar componentes como a unidade de controlo do motor; a transmissão; a direção; o sistema de infoentretenimento; ou os múltiplos sistemas de segurança. Até os faróis ou o sensor que permite saber a temperatura exterior atuam com a ajuda de um chip. Ou seja, a indústria automóvel está absolutamente refém deste pequeno componente. E isso está a ser um verdadeiro problema.

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Até aqui, a maioria dos chips têm sido produzidos por uma pequena quantidade de fabricantes situados na China, Coreia do Sul e alguns países do sudeste asiático, cuja entrega é muito inferior à procura por parte dos construtores de automóveis. Desde calamidades a surtos de novas variantes do coronavírus, várias têm sido as causas para interrupções no fornecimento. E com os chips para a eletrónica de consumo a revelarem-se bem mais rentáveis (porque são tecnicamente mais avançados e porque não têm sofrido flutuações na procura motivadas pela pandemia, como aconteceu com a indústria automóvel), os construtores de automóveis vão ficando para o fim da fila.

Estamos perante uma verdadeira crise, de efeitos devastadores a nível económico, com vários construtores a verem-se obrigados a interromper a produção de automóveis “apenas” por não terem chips. É o caso da Toyota, que decidiu encerrar temporariamente 14 fábricas no Japão, o que significa uma quebra na produção de cerca de 40%, ou da Volkswagen, que tem interrompido o fabrico na “nossa” Autoeuropa, entre outras unidades.

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Previsões recentemente revistas pela consultora americana AlixPartners apontam para quebras de faturação de 210 mil milhões de dólares em toda a indústria automóvel até ao final do ano, quando em maio previa que o prejuízo se situasse nos 110 mil milhões de dólares. Estima-se que serão fabricados menos 7,7 milhões de automóveis até final de 2021! Significa isto que a crise não está a diminuir. Pelo contrário, mesmo os cenários mais pessimistas de há quatro meses estavam longe da hecatombe que se está a verificar atualmente.

Mesmo com algumas empresas fornecedoras de chips a planearem grandes investimentos em novas fábricas nos Estados Unidos e na Europa, tardará em inverter esta situação. Aliás, são vários os analistas do setor automóvel e os diretores executivos de construtores a prever que a situação se arraste até inícios de 2023.

Conclusão: não há automóveis novos para vender, quando a procura por parte dos clientes tem aumentado significativamente. Por cá, os concessionários estão com prazos médios de entrega de seis meses. Vamos ver o que o futuro nos reserva. Quanto a mim, sou e continuarei a ser fã das novas tecnologias nos automóveis, mas às vezes… Às vezes bate uma saudade da simplicidade daquele Fiesta…

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Nascido em Lisboa, em 1977, fez formação superior em Ciências da Comunicação e em Marketing. Esteve ligado a vários projetos editorias da área automóvel enquanto jornalista e editor, para depois se dedicar por inteiro ao Marketing e à Gestão de Marcas em agências de comunicação e publicidade de renome. Adora SUP de ondas e desde criança que não perde um Grande Prémio de F1.

 

 João Barros Oliveira, escreve esta crónica a convite da AWAY Magazine.

 

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