Há zonas em Portugal onde o solo está praticamente no limite, como revela o Boletim Climatológico do IPMA de março. No final do mês de fevereiro, todos os concelhos de Portugal continental “apresentavam valores de água no solo superiores a 60% sendo que, nas regiões Norte, interior Centro e em alguns municípios do interior do Alentejo, verificavam-se valores de água no solo nos níveis de saturação, situando-se perto da sobressaturação no nordeste transmontano”, como se pode ler na comunicação.
Isto significa que o solo já absorveu toda a água que consegue. “Quando está saturado, funciona como uma esponja cheia: já não retém mais água e qualquer chuva extra escorre imediatamente”, explica à Away Cristina Branquinho, Professora Catedrática do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa).
Mas, que riscos é que esta saturação traz para o dia a dia das pessoas? A especialista explica que, “com o solo cheio de água, aumenta o risco de cheias rápidas, deslizamentos de terra e instabilidade de taludes. Mesmo chuvas fracas podem causar inundações porque o solo já não consegue absorver mais.”
Com o calor e sem cobertura vegetal, o solo fica mais exposto
Quando chega o verão, os solos que estiveram muito encharcados durante o inverno podem ter tido dificuldade em permitir o crescimento normal da vegetação devido ao excesso de água. Depois, com a chegada do calor, secam rapidamente. Sem a cobertura vegetal, que ajuda a manter a temperatura do solo mais baixa, a reter alguma humidade e a reduzir a erosão, o solo fica mais exposto, como alerta a especialista.
“Se ocorrer um incêndio, essa proteção desaparece quase por completo: a vegetação que estabilizava o solo arde e a superfície fica mais vulnerável. Quando regressarem as primeiras chuvas, estas áreas têm maior risco de erosão e enxurradas, porque a água escorre mais depressa e arrasta partículas do solo”, explica.
Quanto tempo vai agora demorar o solo a recuperar?
O risco mantém‑se durante vários dias. Isto acontece porque, como explica Cristina Branquinho, o solo demora tempo a perder o excesso de água. “Pode ser entre alguns dias e mais de uma semana, dependendo da temperatura, vento e tipo de solo. Sendo mais rápido em solos arenosos e com temperaturas elevadas”, explica.
Quais as zonas mais afetadas e como devemos agir?
As zonas mais afetadas são normalmente as que já tiveram muita chuva contínua e onde os solos são mais argilosos ou onde há encostas íngremes. “Nessas alturas de chuvas intensas, as pessoas devem evitar circular em estradas sujeitas a cheias, manter distância de taludes instáveis e seguir as indicações da Proteção Civil”, começa por alertar a Professora da Faculdade de Ciências.