Depois de várias semanas marcadas por tempo seco, estável e predominantemente soalheiro, Portugal continental poderá voltar a ter chuva a partir de sexta-feira, 6 de novembro. As previsões apontam para a aproximação de uma extensa região depressionária no Atlântico, capaz de transportar frentes de precipitação até ao território nacional.
A mudança está a ser acompanhada pelos meteorologistas, não apenas pelo regresso da chuva, mas também pelas características da massa de ar húmido que poderá acompanhar este sistema. Um dos cenários em análise prevê a chegada de humidade de origem subtropical, que poderá tornar a precipitação mais eficiente.
A previsão ainda apresenta incertezas, sobretudo quanto à distribuição geográfica e à quantidade de chuva. No entanto, há já sinais de mudança nas previsões dos principais modelos meteorológicos.
Quando chega a chuva e que regiões podem ser afetadas?
De acordo com a mais recente análise publicada pela Meteored Portugal, com base no modelo europeu ECMWF, sexta-feira, 6 de novembro, é a data mais provável para o início do regresso da precipitação a Portugal continental.
Esta tendência é também compatível com a previsão descritiva do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), atualizada a 2 de novembro. O instituto previa para sexta-feira um aumento gradual da nebulosidade, sobretudo nas regiões Norte e Centro, com períodos de chuva a partir da tarde, mais prováveis no litoral.
A precipitação poderá começar por afetar estas regiões, embora ainda não seja possível determinar com segurança quais as localidades onde irá chover primeiro ou onde os episódios poderão ser mais significativos.
A evolução dependerá da posição e da trajetória da depressão atlântica, bem como das frentes associadas. Pequenas alterações na circulação atmosférica podem modificar a hora de chegada da chuva e a sua distribuição pelo território.
Por isso, os mapas de precipitação disponíveis nesta fase devem ser interpretados com cautela. Ainda é cedo para avançar com valores de acumulação ou garantir que todas as regiões serão afetadas da mesma forma.
O que está a provocar esta mudança no estado do tempo?
A alteração deverá estar relacionada com a reorganização da circulação atmosférica no Atlântico. Segundo a análise da Meteored, um anticiclone robusto deverá posicionar-se nas proximidades das Ilhas Britânicas, criando condições para que perturbações e frentes atlânticas avancem em direção à Península Ibérica.
Entre sexta-feira e sábado, 7 de novembro, uma extensa região de baixas pressões poderá aprofundar-se no Atlântico, nas imediações dos Açores, e deslocar-se gradualmente para nordeste.
A rotação deste sistema deverá favorecer a formação e progressão de várias superfícies frontais, responsáveis pelo aumento da nebulosidade e pela chegada da precipitação.
O cenário representa uma alteração face ao padrão de estabilidade que tem predominado nas últimas semanas, mas a intensidade e a duração deste episódio ainda estão dependentes da evolução dos modelos meteorológicos.
Porque é que os meteorologistas estão atentos à chamada chuva eficiente?
Um dos aspetos que merece maior atenção é a possibilidade de a depressão ser acompanhada por um fluxo de ar muito húmido e ameno, proveniente de sudoeste e com origem em regiões subtropicais.
Este transporte de humidade pode estar associado ao fenómeno conhecido como rio atmosférico. Trata-se de uma faixa relativamente estreita e alongada da atmosfera que transporta grandes quantidades de vapor de água, muitas vezes desde regiões tropicais ou subtropicais para latitudes mais elevadas.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), estes corredores de humidade podem transportar grandes quantidades de vapor de água e, quando chegam a terra, libertá-lo sob a forma de chuva ou neve. Dependendo da sua intensidade e das condições atmosféricas, podem contribuir para episódios de precipitação abundante.
É neste contexto que surge a expressão “chuva eficiente”: uma massa de ar com elevado teor de humidade pode aumentar a quantidade de água disponível para precipitação quando é forçada a subir e a condensar.
No caso de Portugal, a possibilidade de este fluxo reforçar as frentes associadas à depressão é um dos fatores que justificam a atenção dos especialistas. Ainda assim, não significa que esteja confirmado um episódio de chuva extrema ou generalizada.
Depois de semanas sem chuva, há risco de inundações?
O regresso da precipitação acontece depois de um período prolongado de tempo seco, o que torna importante acompanhar a resposta do território à chegada da água.
Quando a chuva regressa após semanas de pouca precipitação, a capacidade de infiltração dos solos pode variar bastante consoante o tipo de terreno, a sua compactação, a vegetação e as condições locais. Se a intensidade da precipitação for elevada ou se a água não conseguir infiltrar-se com rapidez suficiente, poderá aumentar o escoamento superficial e, em determinadas circunstâncias, o risco de acumulação de água e de inundações.
No entanto, não é possível concluir, nesta fase, que a depressão irá provocar cheias ou inundações em Portugal. Para avaliar esse risco será necessário conhecer melhor a intensidade da chuva, a sua duração, a distribuição geográfica e a evolução das condições no terreno.
A Proteção Civil e as autoridades locais poderão acompanhar a situação à medida que as previsões se tornem mais precisas.
O que se sabe para os próximos dias?
Até à chegada da possível mudança, a previsão aponta para a manutenção de condições relativamente estáveis, com períodos de céu pouco nublado ou limpo e temperaturas mais frescas do que as registadas anteriormente.
A partir de sexta-feira, a nebulosidade deverá aumentar, sobretudo no Norte e Centro, com possibilidade de períodos de chuva a partir da tarde, em particular no litoral.
A grande questão continua a ser a evolução da depressão atlântica e a quantidade de humidade que poderá transportar até Portugal. O modelo europeu ECMWF disponibiliza previsões de médio prazo até 15 dias, recorrendo a vários cenários para avaliar a incerteza. Por isso, as próximas atualizações serão importantes para perceber se a chuva se estenderá a mais regiões e se poderá ganhar intensidade.
Para já, há sinais de que o tempo seco poderá estar perto de terminar. Mas será necessário esperar pelas próximas previsões para perceber exatamente onde, quando e com que intensidade vai chover.