Com os combustíveis a pesarem cada vez mais no orçamento familiar, mais de um terço dos condutores portugueses reduziu as deslocações não essenciais nos últimos seis meses. Um em cada quatro mudou também de posto de abastecimento para tentar gastar menos.
Pegar no carro para uma deslocação que não é indispensável está a tornar-se uma decisão cada vez mais ponderada para muitos portugueses. Com os preços dos combustíveis a pressionarem os orçamentos familiares, há quem esteja a deixar o automóvel mais vezes estacionado para evitar despesas.
Segundo o estudo Observador Cetelem Automóvel, 37% dos condutores portugueses reduziram as deslocações não essenciais nos últimos seis meses para fazer face aos custos dos combustíveis. Além disso, 25% mudaram de posto de abastecimento na tentativa de encontrar preços mais baixos.
Os resultados mostram como o custo de utilizar um automóvel está a influenciar os hábitos dos portugueses. Mais do que um critério na compra de um veículo, o preço passou também a condicionar a frequência com que os condutores o utilizam.
O estudo, intitulado «Origem ou Preço? O que move os condutores», foi realizado em 13 países, através de inquéritos a 15.770 pessoas com 18 ou mais anos, entre 8 e 19 de junho de 2026.
Preço dos combustíveis obriga a repensar deslocações
A pressão sobre o orçamento não se limita à escolha do automóvel. Para muitos condutores, a necessidade de poupar começa antes mesmo de entrar no carro: há deslocações que podem ser adiadas, evitadas ou substituídas por outras formas de transporte.
Os 37% de portugueses que reduziram as viagens não essenciais refletem esta mudança de comportamento. A procura por postos de abastecimento mais baratos, referida por um quarto dos inquiridos, é outra das estratégias adotadas para tentar controlar as despesas.
O preço continua, aliás, a ser determinante na relação dos consumidores com o mercado automóvel. Segundo o Cetelem, os portugueses privilegiam o custo em detrimento de fatores como o prestígio ou a origem da marca quando ponderam comprar um veículo.
Mais de metade dos portugueses pondera comprar um carro híbrido ou elétrico
Apesar da preocupação com os custos, a transição para motorizações eletrificadas continua a ganhar espaço nas intenções de compra.
Entre os portugueses que planeiam adquirir um automóvel nos próximos 12 meses, 52% apontam para um modelo híbrido ou elétrico. O valor está alinhado com a média global dos 13 países analisados, também de 52%, e aproxima-se da média europeia, que se situa nos 55%.
Ainda assim, Portugal fica atrás de outros mercados do Sul da Europa. Em Itália, 68% dos potenciais compradores preferem um modelo híbrido ou elétrico. Em Espanha, a percentagem é de 65%, enquanto em França chega aos 60%.
Os dados mostram que a escolha da motorização é cada vez mais influenciada por preocupações com os custos e pela procura de soluções de mobilidade alternativas. No entanto, o estudo não permite concluir que a poupança nos combustíveis seja a única razão para esta preferência.
Portugueses dão prioridade ao preço e nem sempre são fiéis às marcas
Na hora de comprar um automóvel, o preço continua a falar mais alto do que a origem ou o prestígio do fabricante. Num país sem uma marca automóvel nacional, 60% dos inquiridos admitem já ter excluído uma marca da sua escolha apenas por causa da sua origem.
A realidade é diferente nos países com fabricantes próprios. No Japão, 83% dos consumidores dizem dar preferência a uma marca nacional. Na Alemanha, essa percentagem é de 53%, nos Estados Unidos é de 51% e em França chega aos 48%.
A fidelidade às marcas também varia consoante o mercado. Entre os compradores de automóveis novos, 48% voltam a escolher a mesma marca numa segunda aquisição. Nos usados, a percentagem desce para 32%.
A ligação emocional ao automóvel atual não é particularmente forte entre os portugueses: apenas 47% dizem sentir uma ligação forte ao veículo que conduzem. O valor fica abaixo da média europeia, de 53%, e bastante distante do registado na China, onde chega aos 86%.
Mercado automóvel português deverá crescer 10% em 2026
Apesar da pressão sentida pelos consumidores, o mercado automóvel português tem demonstrado uma evolução positiva.
Em 2025, foram comercializados 257 mil automóveis ligeiros de passageiros em Portugal, um crescimento de 6,3% face ao ano anterior. Para 2026, o Observador Cetelem estima uma subida próxima dos 10%, que poderá levar o mercado até às 280 mil unidades novas vendidas. A previsão para 2027 aponta para uma estabilização em torno desse volume.
Portugal, com um crescimento de 1% desde a pandemia, e a Polónia, com uma subida de 8%, destacam-se entre os poucos mercados europeus que conseguiram crescer neste período, segundo os dados apresentados pelo estudo. Em sentido contrário, a média europeia regista uma quebra de 17%, com descidas mais acentuadas em França (-26%) e na Alemanha (-21%).
Entre as marcas mais vendidas em Portugal, a Peugeot surge na primeira posição, com 10%, seguida da Renault e da Mercedes-Benz, ambas com 8%. No segmento dos automóveis elétricos, a liderança é partilhada pela Mercedes-Benz e pela Peugeot, com 11% cada, seguindo-se a BMW, com 9%.
Para David Correia, diretor de Mobilidade do Cetelem, o preço continua a ser o fator determinante nas decisões dos consumidores. O responsável considera que o desafio do setor passa por disponibilizar soluções que conciliem as necessidades de mobilidade com as possibilidades financeiras das famílias.
O estudo Observador Cetelem Automóvel foi desenvolvido em conjunto com a consultora C-Ways e os inquéritos foram realizados pela Harris Interactive. Foram abrangidos 13 países: Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, Turquia, Japão, China e Estados Unidos.