Opinião
André Mendes
Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

O futuro pretende ser agradável, mas tenho pouca vontade de o conhecer. Prefiro o passado

Nos poucos segundos do dia em que permito ser um pouco nostálgico, fico a pensar como seria se tivesse nascido noutra data e noutro lugar.
O desejo de voltar ao passado (Foto: M.Rosen/Unsplash)
O desejo de voltar ao passado (Foto: M.Rosen/Unsplash)

Estamos todos em aceleração rumo a um futuro que parece estar quase sempre a chegar, mas que nos alimenta apenas com teorias de como vai ser bom. Na prática, no entanto, o que vou vendo diariamente continua a ser mais confusão, mais trânsito, preços de combustíveis (e os da eletricidade) cada vez mais elevados, vou descobrindo ainda mais radares de velocidade, muito mais custos diários e cada vez menos receitas. Dou por mim a pensar como seria se tivesse vivido noutra época.

É claro que esta é daquelas coisas que não pude, nem posso escolher, até porque o Delorean de Regresso ao Futuro ainda faz mesmo parte de um filme de ficção, mas basta um pouco de imaginação e nostalgia, bem como uma ou outra série de televisão para me deixar a pensar nos tempos em que as coisas não pareciam ser tão exigentes e desgastantes.

No final dos anos 60, por exemplo, as empresas ainda não obedeciam cegamente aos resultados dos ratings como se fossem a salvação da pátria, havia a possibilidade de ter uma carreira e de irmos subindo de escalão dentro de uma mesma empresa caso o trabalhador fosse competente e não apenas se conhecesse determinada pessoa. Nessa altura, havia mesmo quem trabalhasse na mesma empresa durante diversos anos, muitos até à idade da reforma.

Fico a pensar como seria ter um ordenado, que me permitisse juntar para umas férias de verão com a família num local previamente escolhido, num hotel que nos criasse novas recordações, ou mesmo em investir num carro novo, sem leasings, ALD, prestações e outras confusões. Apenas ir ao concessionário, escolher, falar com o vendedor, pagar e pronto, usufruir do meu carro novo, numa cidade onde ainda fosse possível viajar do ponto A ao ponto B sem ter de usar uma aplicação para descobrir por onde havia menos trânsito ou se iria ter um lugar para estacionar no destino. E já que estamos no final dos anos 60, por que não um Ford Mustang GT 390, igual ao que Steve Mcqueen usou em Bullit?

As cidades de hoje não foram pensadas para a quantidade de carros que se despejam lá para dentro todos os dias. E enquanto as casas continuarem a custar uma fortuna e as pessoas continuarem a ser obrigadas a morar fora das cidades por causa disso mesmo, é algo que vai continuar sempre a acontecer.

Os transportes públicos ainda não são uma alternativa. Mesmo numa fase em que ainda nos encontramos a sair de uma pandemia, ainda que muita gente já ache que tudo acabou, já há carruagens de comboio com centenas de pessoas a respirarem umas para cima das outras por não terem espaço físico disponível para se mexerem. Lotação mais do que saturada e pessoas a serem tratadas como se fossem gado, quer a viagem seja em transportes públicos ou dentro de um automóvel, que, na grande maioria dos casos, não é o que mais gostavam de ter e sim aquele que consegue responder a um número infindável de necessidades. Muitas delas criadas pelos próprios fabricantes.

Noutra altura, se calhar, a vida não seria melhor. Mas eu acho que deveria ser muito mais tranquila. Pelo menos, o suficiente para tentar imaginá-la e desejar experimentar.

Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

 

 André Mendes, escreve esta crónica a convite da AWAY Magazine.

 

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