Opinião
André Mendes
Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

Não há amor como o primeiro e com os automóveis acontece o mesmo

Se há memória que vou guardar para sempre é a do meu primeiro carro, aquele que me ensinou e deu início a tanta coisa
Opel 1204 S Caravan (1980)
Opel 1204 S Caravan (1980)
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Para as pessoas que gostam mesmo de automóveis, a memória do seu primeiro carro é, talvez, uma das mais especiais. Tal como se costuma dizer, não há amor como o primeiro e com os automóveis acontece precisamente o mesmo. Desde o momento de pegar na chave pela primeira vez com o sentimento de que é nosso até ao momento em que arrancamos, passando pelos pormenores dos comandos, dos cheiros, da primeira vez que rodamos a chave e ligamos o motor. Tudo é especial e memorável.

No meu caso, o meu primeiro carro até foi uma carrinha. Era uma Opel 1204 S Caravan de cor branca e com apenas uma discreta risca lateral preta e vermelha que o meu avô tinha encomendado na última pintura. Era um carro que já estava na família há alguns anos e com o qual eu até já tinha outras experiências, tal como já contei em outra crónica, mas depois da morte do meu avô e da minha avó ter decidido que já não lhe apetecia conduzir mais, a Opel 1204 S ficou apenas à espera dos meus 18 anos e da minha carta de condução.

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Quando chegou a altura certa mudou-se para a minha rua e com um pequeno jogo de logística entre amigos, até já estava presente no parque de estacionamento onde eu iria começar e terminar o meu exame de condução. Felizmente, passei logo à primeira e depois de carimbado o aprovado na licença de aprendizagem, estava legalmente apto para conduzir. Era agora. Sentei-me ao volante, fiquei em silêncio uns segundos e arranquei rumo ao centro da cidade. Apenas eu e a Opel, numa nova parceria de aventura e descoberta que ainda iria durar… uns meses.

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O facto de ter tração traseira e um motor pouco potente, mas também pneus ressequidos com pouco rasto e que já não gostavam de chuva, obrigaram-me a aprender muito depressa como se processavam muitos dos movimentos da carroçaria. Os estacionamentos em centros comerciais de piso mais escorregadio, tinham sempre nota artística.

A minha Opel nem sequer tinha rádio, mas houve dias em que duas enormes colunas eram colocadas na bagageira e davam mais ânimo às muitas saídas noturnas por que passou. Ainda hoje relembro de cabeça muitas das coisas a que aquele habitáculo assistiu e muitas das memórias que foram criadas, não apenas por mim, mas por todo o grupo de amigos com quem partilhava muitas destas saídas.

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Numa delas, no entanto, e numa noite chuvosa que envolveu um piso escorregadio de empedrado, a Opel voltou a pregar uma das suas muitas partidas e a direção que a carroçaria tomou não foi a mais desejada. Não era eu que estava ao volante, aliás, nem sequer estava no carro quando aconteceu. O arranjo na oficina acabou por ser mais longo do que o desejado e, entretanto, houve outro carro mais recente na família que ia ficar sem dono, pelo que a sucessão foi simples. A Opel acabou por ser vendida por um intermediário ainda antes de estar pronta e nunca mais a vi, pois agora, era um Citroën AX que me acompanhava diariamente.

Depois de tudo isto, acabei por perder o rasto da minha Opel 1204 S Caravan e mais tarde, numa busca com a matrícula FV-96-69 – a mais original de sempre e com um significado muito especial, atribuído por uma amiga muito próxima e que não posso contar aqui – percebi que já não existia nenhuma apólice de seguro atribuída a esta matrícula e o mais provável é que tenha sido entregue para abate e transformada num cubo de metal, tal como tantas outras preciosidades do mundo automóvel. Se alguém a vir por aí, digam-me qualquer coisa…

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Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

 

 André Mendes, escreve esta crónica a convite da AWAY Magazine.

 

 

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