Opinião

E os automóveis? Continuam a ter autorização para dar um salto ao centro da cidade? Mesmo?

Há dias em que se torna tão complicado conduzir em Lisboa que fico sem qualquer vontade de passar a ponte para lá ir. Mas tenho saudades.
Lisboa
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Quando penso em todas as novas soluções de mobilidade urbana que estamos a conhecer todos os dias, fico com a ideia de que o automóvel está a ficar cada vez mais esquecido, como se fosse o principal alvo a abater. E não apenas os que ainda são movidos a combustíveis fósseis, estou a falar de todos. Ir de carro a Lisboa é um pesadelo.

Imaginem que me apetecia ir beber um café com Fernando Pessoa na esplanada da Brasileira do Chiado? É impossível. Primeiro porque demorava horas a lá chegar, pelo trânsito, pela confusão de ruas ou pelo número de transportes. E depois porque teria de andar à procura de um eventual e milagroso lugar disponível, pagando uma fortuna de parquímetro, além da moeda obrigatória ao carocho de serviço, sob pena de ter modificações indesejadas no carro assim que regresse ao mesmo.

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Estacionar em Lisboa é cada vez mais complicado, pois é quase obrigatório usar as soluções de mobilidade que vão aparecendo e os automóveis são novamente os “mauzões”, os empecilhos, os monos que ainda há quem abandone em cima de passeios, explorando a criatividade com os estacionamentos mais originais. Eu ainda me lembro de ir com os meus pais à baixa de Lisboa e de eles estacionarem o carro na Praça do Comércio e de como era bom andar naquelas ruas, especialmente na altura do Natal. Agora? Nem tanto…

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Atenção, não quero dizer com isto que estou de acordo com o estacionamento de automóveis naquele espaço, bem pelo contrário, mas em vez de ser ter eliminado simplesmente a possibilidade no final dos anos 80, acho que deveriam ter sido criadas (boas) alternativas. Mais parques de estacionamento, por exemplo, daqueles em que não é preciso ter uma pontuação máxima no Tetris para os conseguir utilizar. E porque não mesmo algumas ligeiras alterações ao plano do Marquês de Pombal, que reergueu Lisboa depois do terramoto de 1755, mas com um óbvio desconhecimento da loucura em que esta cidade se ia transformar? E não, não estou a falar de ciclovias que roubam metade da largura de algumas avenidas.

Tenho saudades de descer a Rua Áurea a pé com direito a paragem na papelaria onde comprava o material escolar há quase 40 anos, virar na Rua da Conceição cumprimentando o senhor da retrosaria que conhecia os meus avós e voltar a subir pela Rua da Prata olhando para as montras das lojas mais antigas, agora misturadas ou substituídas pelas que parecem ter sido decalcadas das dos centros comerciais. E posso fazê-lo, é certo. Mas chegar lá de carro é tão complicado que fico sem vontade.

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Sou filho e neto de lisboetas, dos bairros mais típicos de Lisboa, mais alfacinha é complicado, mas estou cada vez mais desligado de Lisboa. Atualmente, é impossível descer a Avenida da Liberdade de carro até à Praça do Comércio, virar à direita para o Cais do Sodré e percorrer todas as avenidas, passando por Alcantara e continuando até à zona de Belém. A menos que seja de trotinete, ou de autocarro, ou no elétrico, ou a pé. E para tanta confusão, faço como a grande maioria dos portugueses e dou um salto a um qualquer centro comercial. É que de carro, é uma dor de cabeça.

Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

 

 André Mendes, escreve esta crónica a convite da AWAY Magazine.

 

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