Opinião

A mobilidade e a preguiça

Mais um dia, mais uma ideia para o mundo da mobilidade urbana. Mas quantas delas é que, na realidade, conseguem responder a necessidades individuais?
Padrao dos Descobrimentos (Foto: divulgação)
Padrao dos Descobrimentos (Foto: divulgação)
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A mobilidade urbana é um gigante novo mundo que, mais do que uma necessidade, está na moda. De um momento para o outro, parece que todos os dias conheço uma nova ideia, uma nova solução, uma nova alternativa que vai mudar o meu dia. No entanto, como não moro no centro de uma cidade, vejo-me obrigado a torcer o nariz a algumas das propostas que vou conhecendo.

Por exemplo, se digitarmos apenas “Lisboa” nos mapas no Google, somos levados para o Campo dos Mártires da Pátria, uma posição geográfica a que podemos chamar o centro da cidade e que fica a pouco mais de 15 quilómetros do local onde vivo, nada de outro mundo. No entanto, nesta distância tenho um rio para atravessar, o que poderá dificultar o trajeto, mas a principal dificuldade começa a assim que ponho o pé na rua.

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Para esta experiência, estou munido apenas do meu telefone e da carteira, não tenho trotinetes disponíveis, nem bicicletas elétricas, nem nenhuma outra opção semelhante na zona onde habito e na qual não sou o único a morar. Há transportes relativamente próximos, mas que me levam para o sentido inverso antes de mudar para a direção de onde quero efetivamente ir, com a desvantagem de passarem apenas de 30 em 30 minutos e em apenas dois turnos durante o dia. Ou seja, a solução imediata mais prática, é mesmo continuar a levar o carro, ou a chamar um TVDE para um destino intermédio.

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Se optar pelos transportes públicos, nos turnos de maior tráfego, tenho um comboio de 10 em 10 minutos, mas que não me leva ao destino. Leva-me a outro comboio, ou ao metro, e termina com uma deslocação a pé entre a zona do Intendente e o Campo dos Mártires da Pátria que, tal como muitos sabem, não é muito longe, mas é a subir e a preguiça é tramada.

Ou seja, em média, e segundo o Google, demoro cerca de hora e meia a chegar ao Campo dos Mártires da Pátria de transportes. Que, apesar de tudo, seria praticamente o que demoraria de carro, uma vez que depois dos 25 minutos de deslocação, demoraria o resto do tempo a encontrar um lugar de estacionamento. E sim, eu sei que há um parque, mas também sei quanto custa.

Numa outra experiência que fiz recentemente, depois de um jantar junto ao Padrão dos Descobrimentos, a facilidade com que usamos as novas soluções pode nem sempre ser simples, a menos que esteja tudo configurado para quem já usa regularmente.

Nessa zona de Lisboa, é difícil não encontrar uma trotinete elétrica disponível, por entre vários operadores, cada um com a sua aplicação. E foi nesse momento que me lembrei de em tempos ter alguns euros disponíveis para um teste numa dessas mesmas aplicações.

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Enquanto as pessoas com quem estava foram andando a pé, para ajudar a iniciar a digestão do jantar, eu fiquei a instalar a aplicação novamente, a tentar recuperar a minha conta (e o saldo), para poder experimentar finalmente uma destas novas trotinetes. Só que não consegui.

Com as aplicações ativas e configuradas, muitas destas soluções ficam imediatamente disponíveis e são simples de utilizar, mas o que eu acho é que a forma de levar a maior quantidade de gente a experimentar, ainda não existe. O primeiro passo é o principal problema. O aderir a novas soluções e experimentar coisas novas, ainda é dos maiores entraves para uma grande percentagem de pessoas. Acima de tudo, o primeiro passo tem de ser simples e muito prático, pois a preguiça, muitas vezes, inibe a vontade de sequer querer experimentar.

Concebido logo após o 25 de abril de 1974 e nascido em Lisboa, refugiou-se na Ajuda para passar o seu primeiro quarto de século. Quando a família cresceu, mudou para a outra margem do Tejo e foi viver para perto da praia e para longe do trânsito. Já teve dois filhos, plantou uma árvore e escreveu milhões de carateres desde que entrou no mundo do jornalismo automóvel há mais de 20 anos, porque conduzir é uma das suas maiores paixões.

 

 André Mendes, escreve esta crónica a convite da AWAY Magazine.

 

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