Opinião
Fátima Oliveira
Fátima Oliveira é atualmente a gestora de produção ex vitro na Deifil, empresa de referência na propagação de espécies vegetais de difícil reprodução. É também representante da Deifil no Conselho Científico-Tecnológico do MORE – Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação. É licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e mestre em Biologia Funcional e Biotecnologia de Plantas pela mesma faculdade.

Castanheiros micorrizados: o caminho sustentável para a adaptação às alterações climáticas

Decréscimo na produção de castanha verificou-se num ano extremamente quente e seco
Texto
Castanheiro (foto: Eric Prouzet/Unsplash)
Castanheiro com castanhas
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Durante séculos, o castanheiro foi a espécie arbórea-frutícola mais importante do Norte de Portugal. Com o seu porte imponente e a sua grande longevidade, o castanheiro é uma espécie com interesse ecológico, económico e social.

O seu fruto, a castanha, constituiu, até ao aparecimento do milho e da batata, a base da dieta alimentar das populações rurais. Contudo, com o êxodo rural, com a introdução de novas culturas e com o aparecimento de doenças que dizimaram inúmeros castanheiros, esta cultura sofreu um grande declínio. Porém, a cultura do castanheiro tem recuperado nos últimos anos, com a castanha a alcançar um lugar de destaque nos hábitos alimentares.

Dos cerca de 30 mil hectares ocupados por esta cultura em 2000, a área de território nacional ocupada por castanheiros aumentou para cerca de 51 mil hectares em 2019, atingindo as cerca de 44 mil toneladas de castanhas produzidas nesse ano e tornando Portugal no sexto maior produtor mundial deste fruto. Porém, a produção nacional de castanha tem sofrido um declínio desde então, tendo sofrido, em 2022, um decréscimo de 39,9% face à campanha do ano anterior, sendo esta é a campanha de menor produtividade dos últimos 37 anos de acordo com dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, o que faz com que Portugal seja o oitavo maior produtor mundial de castanha.

Este decréscimo na produção verificou-se num ano extremamente quente e seco, com a seca das mais severas desde que existem registos sistemáticos e que colocou praticamente todo o território continental em seca severa e extrema nos meses de fevereiro, maio, junho, julho e agosto. Estas condições climáticas, aliadas a novas doenças como a podridão da castanha, que se estima que tenha provocado quebras na ordem dos 40 a 50% na campanha de 2023, são das principais preocupações do setor. Aplicar soluções que permitam mitigar o efeito das alterações climáticas, das pragas e das doenças, torna-se, por isso, essencial.

Ecologicamente significativos, os fungos micorrízicos estabelecem associações com as raízes das plantas, desempenhando um papel vital nos ecossistemas agrícolas. Estes fungos favorecem a captação de água e nutrientes por parte da planta, além de protegerem o seu sistema radicular, melhorando, assim, a nutrição das plantas, o seu crescimento, potencial produtivo e uniformidade da produção. Além disso, estudos recentes demonstraram que a associação do castanheiro com estes fungos permite mitigar parte do efeito da seca e das elevadas temperaturas.

Neste sentido, a associação das plantas com estas espécies fúngicas em viveiro torna-se essencial. A comercialização de castanheiros micorrizados irá promover o desenvolvimento saudável das plantas e conferir-lhes ferramentas para tolerarem as condições climáticas adversas. Esta é uma das estratégias para ultrapassar os desafios atuais, pois promover a biodiversidade e manter o equilíbrio natural dos ecossistemas pode e deve fazer parte da solução.

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