Opinião
Peter Bragg
Peter Bragg ocupa o cargo de EMEA Sustainability & Government Affairs Director da Canon Europa. Conta com vasta experiência internacional em sustentabilidade e ambiente, com competências e capacidades comprovadas no desenvolvimento de estratégias e resultados de negócios em matérias de ambiente, sustentabilidade, energia, património e responsabilidade social.

Como a refabricação pode ajudar a completar o ciclo da sustentabilidade

Há um princípio que todas as organizações em todo o mundo podem adotar para criar um grande impacto: a refabricação.
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Como a refabricação pode ajudar a completar o ciclo da sustentabilidade (foto: D.R)
Como a refabricação pode ajudar a completar o ciclo da sustentabilidade (foto: D.R)

Todas as decisões que tomamos têm um impacto – desde os alimentos que comemos à forma como viajamos, passando pelas roupas que compramos e aos produtos que utilizamos. Uma vida sustentável é construída com base em ações e, enquanto indivíduos, pequenas mudanças no nosso quotidiano podem contribuir para uma enorme redução nas emissões de carbono. No entanto, o maior impacto positivo é indiscutivelmente conduzido pelas mudanças de comportamento dentro dos governos e das grandes organizações.

Felizmente, estão disponíveis muitos apoios para as empresas que pretendem adotar uma abordagem mais sustentável. Guiadas pelos seus setores de atividade, as organizações devem identificar as áreas onde podem ter maior impacto – e, para apoiar o objetivo da UE de atingir a neutralidade de carbono até 2050, começar a avaliar que investimento, pesquisa e inovação podem levar a cabo.

Contudo, independentemente do setor, há um princípio que todas as organizações em todo o mundo podem adotar para criar um grande impacto: a refabricação.

Uma economia mais sustentável e circular

A frase ‘reduzir, reutilizar e reciclar’ é mais simples do que parece. É simples aplicá-la nas operações das empresas, bem como em hábitos de consumo individuais. Ao reduzir as ações que prejudicam ativamente o ambiente, reutilizar artigos e materiais que não se possam reduzir, e – mesmo que tudo o resto falhe – reciclar o máximo possível, há como reduzir o desperdício.

A economia circular é um modelo similar de produção e consumo. Uma diretiva-chave do Pacto Ecológico Europeu baseia-se nos princípios de reduzir o desperdício, redesenhar os produtos e os serviços de utilização intensiva e reinventar materiais ‘desperdiçados’ – uma economia que é orientada pelo design final dos produtos. Ampliar o ciclo de vida das coisas que utilizamos traduz-se numa menor necessidade de produzir a partir do zero, cortando drasticamente as emissões envolvidas na aquisição e transformação de matérias-primas e na decomposição dos objetos reciclados.

Ao produzir o menor desperdício possível, a economia circular cria uma abordagem de consumo mais sustentável. Na verdade, estima-se que a adoção da economia circular em grande escala na Europa poderia efetivamente reduzir para metade as emissões de CO2 até 2030.

A refabricação na tecnologia

O setor da tecnologia tem sido particularmente lento a adaptar-se a este modelo de redução do desperdício – o que se deve, em parte, às complexidades únicas que encara na produção. A produção de tecnologias é um processo bastante dispendioso, exigindo matérias-primas e métodos de fabrico que podem ter um enorme impacto no meio ambiente. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento constante significa que os aperfeiçoamentos e as melhorias desejáveis são produzidos a um ritmo mais elevado do que noutras indústrias – porque, compreensivelmente, as empresas preferem ter os dispositivos mais recentes e com mais funcionalidades.

A reciclagem pode, então, ser a resposta. A Agência Europeia do Ambiente divulgou números que demonstram que, infelizmente, os resíduos eletrónicos (e-waste) são sistematicamente reciclados a um ritmo muito inferior do que os resíduos urbanos ou domésticos. Este modelo ‘criar-levar- eliminar’ é insustentável a longo prazo – e é aqui que a refabricação pode ajudar a preencher as lacunas, ao combinar partes reutilizadas, reparadas e novas para criar um dispositivo totalmente ‘novo’. Ao contrário dos dispositivos recondicionados, os refabricados são totalmente desmontados por engenheiros, sujeitos a uma limpeza industrial intensiva e a um processo de remontagem e, posteriormente, são então testados e reconfigurados.

Os dispositivos refabricados são realmente ‘como novos’?

O processo de refabricação é diferente consoante o dispositivo, apesar de o objetivo ser aproveitar ao máximo a sua tecnologia original, substituindo apenas os componentes-chave necessários para assegurar um desempenho elevado. Após uma avaliação inicial, todas as partes que não possam ser reutilizadas são recicladas, enquanto os componentes-chave são desmontados, reparados e reconstruídos.

Recuperando um dispositivo ao máximo, a refabricação reduz o tempo e a energia que seriam despendidos na aquisição e transformação dos materiais necessários para criar um novo produto, ao mesmo tempo que reutiliza materiais na construção de algo que é essencialmente novo. Rigorosamente testados, limpos e reconfigurados, estes dispositivos funcionam exatamente como um novo funcionaria, e têm uma esperança de vida equivalente.

A principal preocupação é que os dispositivos refabricados são, historicamente, considerados como ‘inferiores’, mesmo tendo garantias de um ótimo desempenho. No entanto, se as empresas entenderem as particularidades envolvidas neste processo, podem beneficiar de opções mais sustentáveis e rentáveis, sem comprometer as operações.

Rumar a um futuro sustentável

Talvez o maior bloqueio que o modelo da economia circular enfrenta seja a falta de entendimento do processo que envolve, e a hesitação em volta da refabricação é o indicador-chave desta realidade.

Apesar de a indústria da impressão, por exemplo, estar a liderar neste âmbito com uma crescente procura por impressoras refabricadas, isto ainda não está a acontecer em grande escala no setor da tecnologia.

É necessário fazer mais para educar as empresas relativamente aos benefícios dos dispositivos refabricados – tanto no que toca ao seu impacto ambiental reduzido, como à redução dos custos. Assim que os benefícios da refabricação estejam bem estabelecidos, mais fabricantes vão ser capazes de se envolver no processo de produção circular e levar o setor tecnológico a operar de forma mais sustentável no futuro.

As empresas têm de estar dispostas a investir na refabricação para poderem colher as recompensas económicas e ambientais mais tarde, e existe uma clara necessidade de mais orientações por parte dos reguladores e governos, para a tornar numa prática comum na indústria.

Em suma, apesar das complexidades envolvidas, não há dúvida de que os dispositivos refabricados vão ter um impacto positivo no setor da tecnologia. Quanto mais cedo os governos, as indústrias e as empresas perceberem isso, melhor será para o futuro do planeta.

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