Opinião
Andrea Vota
Andrea Vota, responsável de Public Policy da Bolt para a Europa do Sul

Levar, lugar, largar

A massificação do uso de trotinetes trouxe os seus desafios, sobretudo ao nível do estacionamento
Texto
Andrea Vota, Public Policy Bolt, Europa do Sul (fotomontagem AWAY)
Andrea Vota, Public Policy Bolt, Europa do Sul (fotomontagem AWAY)

Não foi assim há tantos anos que as trotinetes eram um objeto lúdico, que rolavam lado a lado com skates e patins nos parques urbanos, associadas geralmente aos jovens que nelas tentavam truques e piruetas. Pouco mais se pensava desta invenção. O ressurgir destes em anos recentes trouxe de volta consigo a vertente lúdica; trouxe, também, uma utilização que talvez não fosse antecipada por muitos: o seu uso para deslocações diárias.

As trotinetes em concreto têm sido integradas naquilo que se chama de mobilidade partilhada: um conceito que gira em torno do aluguer temporário destes veículos, levando-nos de um ponto ao outro de uma forma mais célere que, quiçá, uma viagem de carro o permitisse devido ao trânsito a que os centros urbanos já nos habituaram.

Um estudo recente da Bolt conclui que perto de 40% das viagens realizadas de trotinete têm ligação a transporte público. Este modelo, inicialmente mais associado aos turistas, rapidamente ganhou tração junto da camada citadina e suburbana, especialmente aquela cuja rotina envolve deslocações mais ou menos longas dentro das cidades.

A massificação do seu uso trouxe também os seus desafios, sobretudo ao nível do estacionamento. Seja por falta de conhecimento ou atos de vandalismo, não há como negar que este é um problema que urge ser solucionado´.

A ocupação das vias públicas, colocando-as como obstáculo aos peões e sobretudo a pessoas com deficiência, tem sido uma das preocupações principais

A indústria da micromobilidade, ainda que relativamente recente, tem vindo a desenvolver soluções do foro tecnológico que procuram solucionar este problema. Aqui, no entanto, o trabalho conjunto com os municípios é crucial: a aplicação de “geofencing” – a interdição de certas áreas para a circulação – e a determinação de zonas ou locais concretos para estacionamento só terão sucesso se implementadas numa sinergia necessária com as câmaras municipais.

Por seu lado, a educação e promoção de boas práticas junto da comunidade desempenha um papel de grande importância. A pluralidade de intervenientes na implementação e operacionalização da nova mobilidade nas cidades leva a que seja necessário um alinhamento de mensagens a serem transmitidas e a que estas estejam bem entrosadas. Para isto, será sempre necessária também uma intervenção participativa por parte da comunidade de utilizadores, sobretudo na parte do reporte de casos de más práticas de estacionamento, sendo que já se verificam soluções dentro das próprias aplicações para o efeito.

Parafraseando Dante, a razão é-nos dada para discernir o bem do mal – e a verdade é que a adesão diária das pessoas a estes meios de transporte reflete a viabilidade da sua integração nas cidades, sendo que a sinergia com as opções de transporte público é um passo fundamental a seguir. Prova concreta disto é um estudo da Boston Consulting Group publicado o ano passado, e que abrangeu mais de 11 mil pessoas em 23 cidades e 10 países:

“Os consumidores inquiridos indicaram que estariam dispostos a pagar entre 22% a 25% mais” por opções que englobassem transporte público com meios de micromobilidade"

São necessários regulamentos, sim, mas que coloquem a procura e a vontade dos cidadãos em primeiro plano; que tenham como mira a promoção de boas práticas de utilização destes veículos; que estejam pensados em concordância com um planeamento urbano pronto a investir mais e melhor nas infraestruturas adequadas; e, por fim, que não condicionem o acesso equitativo a estas opções de transporte. Isto para que, em vez de vermos as trotinetes largadas num qualquer lugar, possamos associar as três palavras do título - por essa ordem - ao seu uso: levar a trotinete, encontrar um lugar dedicado, e só aí largá-las corretamente.

Andrea Vota escreveu esta crónica a convite da AWAY Magazine

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